News #49 Desenvolvimento para quem? Vou abrir o meu voto e explicar o porquê
Por Priscila Pinheiro
Dentro da ideia de transparência e autenticidade que venho tentando ampliar com quem me segue por aqui – e diante do momento tão delicado que vive a política brasileira, eu decidi abrir o meu voto nesta eleição. Sei que o LinkedIn não é a melhor rede para falar de eleições, porém, essa Newsletter está aqui e acredito que é necessário falar sobre isso nesse momento. Mas, antes de falar do voto, preciso confirmar se você conhece um dos intelectuais mais importantes do Brasil: Milton Santos.
Em 2026, completam-se 100 anos de seu nascimento. Para celebrar o centenário, a TV Cultura produziu o documentário Milton Santos – O Gênio da Geografia, que revisita sua trajetória e mostra por que seu pensamento continua tão necessário. Recomendo com toda a força que você assista, é só clicar aqui.
Milton Santos foi geógrafo, professor, jornalista e pesquisador. Um homem negro, nascido no interior da Bahia, que se tornou um dos intelectuais brasileiros mais respeitados no mundo. Lecionou e seus projetos geniais foram reconhecidos por universidades de vários países – incluindo Brasil, França, Estados Unidos, Canadá, Tanzânia… Escreveu mais de 40 livros. Recebeu cerca de 20 títulos de doutor honoris causa. Em 1994, conquistou o Prêmio Vautrin Lud, a maior distinção internacional da geografia.
Milton Santos é uma inspiração para todos!

Ainda assim, sua importância não cabe em uma lista de títulos e prêmios.
Milton foi um pensador à frente do seu tempo. Com um olhar voltado para as causas sociais e outro para o rigor acadêmico, conseguiu perceber muito cedo questões que hoje estão no centro do debate mundial: a concentração de riqueza, o poder da informação, o controle da tecnologia por poucas empresas e uma democracia cada vez mais submetida aos interesses do mercado.
Ele transformou a geografia ao mostrar que o espaço não é apenas o lugar onde a sociedade vive, mas o resultado das relações econômicas, das tecnologias disponíveis e, principalmente, das escolhas políticas.
Quando uma parte da cidade concentra escolas, hospitais, transporte, cultura e segurança, enquanto outra convive com abandono e precariedade, isso não acontece por acaso. É um projeto de sociedade ocupando o território.
Ao olhar para esse mapa, Milton fazia uma pergunta que continua atual: desenvolvimento para quem?
O progresso que não chega para todos
Milton Santos explicava a globalização a partir de três dimensões. A primeira é a globalização como fábula: a história que nos contam sobre um mundo conectado, moderno e repleto de oportunidades.
A segunda é a globalização como perversidade, ou seja, o mundo como ele realmente acontece. Existe produção de riqueza, mas ela permanece concentrada. Existe tecnologia, mas milhões continuam sem acesso à educação e à saúde. Existe alimento suficiente, mas pessoas ainda passam fome.
A terceira dimensão é a globalização como possibilidade, que vamos aprofundar mais adiante.

Para Milton, o progresso técnico não melhora automaticamente a vida da população. Isso depende de quem controla a tecnologia, dos interesses que orientam seu uso e de quem participa das decisões.
Ele dizia que o mundo era movido pela violência do dinheiro e pela violência da informação. Enquanto o dinheiro define quais interesses serão atendidos, a informação ajuda a apresentá-los como se fossem universais.
A desigualdade, assim, passa a ser tratada como inevitável. A fome parece uma fatalidade, a pobreza vira responsabilidade de quem a enfrenta e o mercado começa a ocupar o lugar que deveria pertencer à política.

Milton chamou esse processo de globalitarismo: um modelo que tenta se impor como o único possível, como se não houvesse outra forma de organizar a economia, o território e a vida em sociedade. Seu pensamento, porém, não terminava nesse diagnóstico.
O futuro construído por quem ficou de fora
Aqui ganha forma a terceira dimensão da globalização – a globalização como possibilidade! Milton acreditava que a tecnologia, o conhecimento e a informação poderiam ser colocados a serviço das necessidades humanas. O desenvolvimento não precisaria beneficiar apenas um grupo restrito de empresas e pessoas. Ele poderia produzir bem-estar, oportunidades e dignidade.
Essa transformação, no entanto, não viria espontaneamente das elites ou dos grupos confortavelmente instalados no sistema.
Milton enxergava nos pobres, nos trabalhadores, nos migrantes e nas populações periféricas não apenas vítimas da desigualdade, mas sujeitos capazes de construir outro futuro. Segundo ele, os pobres desenvolvem uma filosofia do cotidiano porque precisam interpretar a realidade, criar alternativas e construir redes de solidariedade para sobreviver.

Isso não significa romantizar a pobreza, que precisa ser combatida. Significa reconhecer que essas pessoas não são um problema a ser administrado nem apenas destinatárias de ajuda. Devem ser reconhecidos como cidadãos, trabalhadores, produtores de conhecimento e participantes da construção do país.
Milton acreditava que a sociedade brasileira carregava uma força vulcânica, mantida sob pressão pelas estruturas que concentram dinheiro, informação e poder. Libertar essa força exigiria um projeto que transformasse os pobres em parte central das decisões políticas.
É nesse ponto que o pensamento de Milton deixa de ser apenas uma interpretação do mundo e se torna um critério para as nossas escolhas.
Que projeto de país escolhemos?
Depois de conhecer esse pensamento, não consigo olhar para uma eleição apenas como uma disputa entre nomes, partidos ou campanhas. O que está em jogo é o modelo de país que cada candidatura ajuda a construir.
Para mim, é impossível compreender o que Milton Santos nos ensinou e permanecer indiferente.
É Lula que combate a fome como prioridade nacional. Foi no seu governo que o Bolsa Família ganhou escala, o salário mínimo teve valorização real e o acesso às universidades e escolas técnicas foi ampliado. E que temas necessários, como a reparação racial, começaram a ser discutidos. Essas políticas não resolveram todos os problemas, mas estão transformando milhões de vidas.
Não tenho como afirmar que o próprio Milton escolheria Lula, porque ele não está aqui para fazer essa escolha. O que afirmo é que, quando vejo o Brasil pelos olhos de Milton Santos, encontro em Lula o projeto que mais se aproxima do Brasil que Milton desejava transformar.
Um país que não aceite a fome como destino, que reconheça a potência de seu povo, que coloque o desenvolvimento a serviço da vida e inclua nas decisões aqueles que sempre foram deixados de fora.
O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir. – Milton Santos
Em 4 de outubro, apesar de todos os problemas em seus governos, eu voto em Lula. Por ser o único candidato que compartilha essa visão de mundo que Milton Santos estudou, identificou e difundiu. E por isso estou com eles, e te convido a fazer o mesmo.