News #47 O mundo pós-canetinha chegou: você vai inovar ou ficar para trás?
Por Priscila Pinheiro
O que você faz quando metade dos seus clientes decide comer menos, beber menos e gastar diferente? Essa pergunta já não é hipotética: as canetinhas emagrecedoras estão reescrevendo hábitos de consumo em tempo real, e o efeito chega da indústria ao bar da esquina. Nesta edição a gente mostra como esse movimento está mexendo com negócios de todos os tamanhos e o que fazer a respeito. Leia e comente!
Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro já estão provocando mudanças na saúde, no comportamento e na economia.
A gente costuma olhar pra essa história pelo lado da saúde ou da estética, enquanto seus efeitos avançam por muitos outros mercados. Novos hábitos aparecem, prioridades mudam e o dinheiro troca de mãos, alcançando a grande indústria, o restaurante de bairro, a nutricionista, a loja de roupas, a academia, a lavanderia e muitos outros negócios que ainda estão descobrindo sua relação com essa transformação.
As canetinhas se somam ao envelhecimento da população, à busca por qualidade de vida, às mudanças geracionais e à pressão dos preços. Juntas, essas tendências apontam para um consumidor que deseja mais saúde, flexibilidade e conveniência. Cada negócio pode encontrar riscos e oportunidades nesse cenário, e a diferença está na capacidade de perceber a mudança e agir a tempo.
Seu negócio está pronto pro mundo pós-canetinha?
Para as grandes empresas, a mudança é estrutural.
Uma indústria que construiu seu portfólio em torno de leite condensado, grandes porções ou produtos cheios de açúcar precisa de tempo para mudar de rota. A transformação envolve produtos, embalagens, tamanhos, linhas de produção, posicionamento de marca e, em alguns casos, o próprio modelo de negócio. Quanto mais estrutural for a mudança, maior será o valor de começar cedo.
Os impactos também chegam a setores aparentemente distantes da alimentação. O peso transportado influencia o consumo de combustível na aviação, por exemplo, e analistas já calculam quanto uma possível redução do peso médio dos passageiros poderia representar para as companhias aéreas. Esse tipo de projeção mostra a dimensão do movimento e convida qualquer empresa a investigar como os novos hábitos afetarão seus produtos, clientes e receitas.
É essa reflexão que venho propondo nas conversas com lideranças. A empresa precisa entender onde sua oferta se encaixa nessa nova lógica de consumo e quais decisões podem prepará-la para os próximos anos.
De você quer bater um papo sobre isso procure a Kátia Mendes que ela organiza uma conversa comigo.
Para os pequenos negócios, a transformação aparece no cotidiano!
No pequeno negócio, os sinais chegam rapidamente ao balcão. O cliente muda o pedido, divide o prato, procura uma opção mais leve ou deixa parte da porção na mesa. Muitos estabelecimentos ainda apostam em combos enormes, lanches cada vez maiores e sobremesas nas quais a quantidade aparece como o principal valor, enquanto uma parte crescente do público passa a valorizar porções adequadas, qualidade nutricional e liberdade de escolha.
Um levantamento da Abrasel mostra que 61% dos empresários de bares e restaurantes já identificam mudanças no comportamento dos clientes associadas ao uso desses medicamentos. Entre os movimentos percebidos estão:
• 64% relatam aumento na procura por porções menores;
• 65% percebem redução no consumo de sobremesas;
• mais de 70% observam maior frequência na escolha de opções leves;
• mais da metade percebe mudanças nas bebidas sem álcool e, dentro desse grupo, 70% registra aumento nos pedidos.
Os números mostram uma transformação que já chegou à mesa e começa a exigir respostas concretas. Eu tive uma turma no MBA da ESPM que propôs um novo cardápio para uma lancheria em Londrina baseada nessa tendência. E os primeiros resultados impressionam! A inovação aparece no exercício de observar, compreender, testar e aprender com a resposta do cliente.
Menos quantidade pode representar mais valor
Outro dia, fui comprar um pedaço de bolo numa doceria conhecida. Ao lado da versão tradicional, encontrei um bolo de chocolate com 24 gramas de proteína e zero açúcar, vendido por R$ 34, quase três vezes o preço do bolo comum. E vende. E tem margem muito maior.
A experiência mostra pra onde parte do dinheiro do consumidor está indo. A pessoa pode reduzir a quantidade e direcionar mais recursos para qualidade, proteína, conveniência e alinhamento com seus objetivos. A oportunidade pode estar em entregar mais valor numa porção menor, adaptando a oferta e criando uma experiência coerente com esse novo comportamento.
A demanda muda de endereço
A preservação da massa muscular também ganhou espaço nessa conversa. O emagrecimento rápido pode ser acompanhado de perda muscular, especialmente quando falta orientação adequada, o que amplia a procura por musculação, personal trainer, nutricionista e alimentos ricos em proteína.
A transformação chega até dentro de casa. Algumas pessoas passam a valorizar ambientes para exercícios, equipamentos e espaços que favoreçam uma rotina mais ativa, criando oportunidades para academias, profissionais de saúde, arquitetura, móveis, mercado imobiliário e serviços domésticos. A pessoa que reduz o gasto numa grande refeição pode aumentar o investimento em atividade física e acompanhamento, fazendo o dinheiro circular por outras categorias.
Cada mudança pode gerar uma fragilidade para determinada oferta e uma oportunidade para outra. Muitas empresas encontrarão as duas situações ao mesmo tempo.
O efeito pode ir além da fome
Outro aspecto importante está no sistema de recompensa do cérebro. Pesquisas investigam como medicamentos da classe GLP-1 podem influenciar o apetite, a vontade de consumir álcool e outros comportamentos relacionados à recompensa. Soube que até os Cassinos já estão sentindo o impacto. Os estudos sobre apostas e compulsões ainda estão em desenvolvimento, enquanto as evidências atuais já despertam a atenção de setores como bebidas, entretenimento e bem-estar.
Existe também uma conta financeira bastante concreta. Quem investe centenas ou milhares de reais por mês num tratamento tende a avaliar com mais cuidado os hábitos que podem comprometer seus objetivos. Alimentação, bebida, atividade física, roupas e lazer começam a fazer parte de uma mesma decisão sobre estilo de vida.
Um novo ecossistema começa a se formar – até na ilegalidade
As apreensões de medicamentos irregulares ou contrabandeados realizadas pelas autoridades brasileiras ajudam a dimensionar a demanda. Elas também revelam a distância entre interesse, oferta formal e capacidade de pagamento, além dos riscos envolvidos na compra por canais clandestinos.
No mercado formal, novas parcerias já começam a aparecer. A Ticket, por exemplo, firmou uma parceria com a Liti para oferecer aos usuários condições diferenciadas de acesso a acompanhamento médico e nutricional usando Vale Alimentação e Refeição. A iniciativa mostra como uma empresa de benefícios pode ocupar espaço nessa nova jornada de saúde.
Nos Estados Unidos, a Amazon passou a integrar atendimento médico, acompanhamento e acesso à farmácia num programa voltado ao tratamento com medicamentos GLP-1. A empresa busca participar de diferentes momentos da experiência do consumidor, da consulta à entrega. (E isso inspirou o serviço nas ruas de Ciudade Del Est, espicentro do comércio do contrabando para Brasil, Argentina e Uruguai).
Na fronteira médica, um implante experimental de semaglutida entrou nas primeiras etapas de estudos clínicos na Austrália. A tecnologia ainda precisa comprovar segurança, dosagem e eficácia, mas já revela uma direção possível para o setor: tratamentos mais duradouros, integrados e convenientes.
Esses movimentos apontam para a formação de um ecossistema inteiro ao redor das canetinhas. Saúde, alimentação, atividade física, moda, tecnologia, varejo e serviços começam a se conectar numa mesma jornada.
Como essa mudança afeta o seu futuro profissional?
Cada empresa e cada profissional encontrará uma resposta diferente. O primeiro passo é observar o movimento a partir da própria realidade:
• Qual comportamento do consumidor sustenta hoje a minha receita?
• Esse comportamento está crescendo ou diminuindo?
• Para onde o dinheiro do meu cliente está migrando?
• Meu produto entrega quantidade ou valor percebido?
• Posso oferecer porções, produtos ou planos mais flexíveis?
• Que novos serviços podem surgir ao redor dessa mudança?
• Quais sinais do mercado merecem ser acompanhados a partir de agora?
Movimentos estruturais pedem observação contínua, troca de experiências e capacidade de experimentação. Esse é o papel da Liga dos Inovadores : reunir profissionais, empreendedores e lideranças interessados em acompanhar as transformações enquanto elas acontecem e desenvolver repertório para agir diante delas. Saiba mais sobre a Liga no nosso site – https://ligadosinovadores.com.br/
As empresas também podem levar essa discussão para dentro da organização. Por meio de workshops e projetos conduzidos por mim, podemos analisar os impactos sobre produtos, clientes, posicionamento e modelo de negócio, transformando tendências e sinais dispersos em caminhos de ação.
A popularização das canetinhas abre uma conversa muito maior sobre comportamento, consumo e futuro. A pergunta que fica é: como o seu negócio pretende participar dessa transformação?
Entre em contato com a Priscila Pinheiro, nossa conectora na Liga dos Inovadores. Na nossa comunidade, você encontra pessoas reais, encontros semanais e conteúdos para trocar experiências, acompanhar essas transformações, manter-se atualizado e descobrir novas soluções para o seu negócio e para a sua trajetória profissional.
Até a próxima edição!
Aguardo seus comentários, essa newsletter te fez refletir? Quero ouvir você que leu até aqui!
Um abraço,
Marcelo Pimenta e equipe.